05/06/2021

A importância da prevenção no câncer de mama

Imagem de Chamada

Nu?mero de casos tem crescido no mundo, mas diagno?stico precoce eleva chances de cura

O alerta foi dado no ini?cio deste ano pela Organizac?ão Mundial da Sau?de (OMS). O ca?ncer de mama se tornou a forma de tumor maligno mais diagnosticada no mundo, com 2,3 milho?es de casos registrados em 2020, ou 11,7% do total. O mesmo estudo mostrou que o nu?mero de mulheres que estão vivas apo?s serem diagnosticadas com essa doenc?a nos u?ltimos cinco anos era estimado em quase 8 milho?es no ano passado, maior do que os sobreviventes de qualquer outro tipo de ca?ncer. Segundo especialistas, os dados expo?em duas certezas: o ca?ncer de mama tem avanc?ado, mas os tratamentos que permitem a cura ou melhoram a qualidade de vida das pacientes tambe?m estão evoluindo.

Para Fabiana Makdissi, diretora do departamento de Mastologia do hospital A. C. Camargo, a constatac?ão dessa maior incide?ncia e? uma soma de fatores. “O ca?ncer e? uma doenc?a degenerativa, portanto ligada ao envelhecimento da populac?ão. No caso do ca?ncer de mama, ser mulher e estar envelhecendo ja? e? um fator de risco. Mas tambe?m e? verdade que a populac?ão esta? cada vez mais obesa, as mulheres estão tendo filhos mais tarde e estão expostas a?s questo?es hormonais por mais tempo”, explica.

tambe?m destaca os fatores reprodutivos como parte da explicac?ão. Segundo ela, comportamentos que eram considerados protetores no passado se modificaram. “Exige?ncias do mercado de trabalho nas u?ltimas de?cadas levaram as mulheres a postergar a gestac?ão, terem um nu?mero menor de filhos e a amamentarem por menos tempo”, lista a oncologista do Hospital Moinhos de Vento.

Fatores modifica?veis

Essas mudanc?as nos fatores reprodutivos que ocorreram nas u?ltimas de?cadas fazem parte do processo natural de evoluc?ão da sociedade, mas os me?dicos alertam que ha? outros fatores comportamentais que são modifica?veis que poderiam ajudar a frear o crescimento da incide?ncia do ca?ncer de mama. Os exemplos são os ha?bitos alimentares e o sedentarismo – que levam ao sobrepeso –, ale?m do consumo de a?lcool e do tabagismo.

Makdissi afirma que ja? ha? evide?ncias que relacionam o consumo de gorduras saturadas e de ac?u?cares presentes nos “sugar drinks” como refrigerantes a casos de ca?ncer de mama. Ela sugere que uma mulher na idade da menopausa não deveria ganhar ale?m de 10 quilos em relac?ão ao seu peso quando jovem.

Segundo Marina Sahade, oncologista e vice-diretora cli?nica do Hospital Si?rio-Libane?s, uma dieta mais equilibrada não so? reduz o risco de contrair a doenc?a como ajuda no tratamento e melhora a expectativa de vida das pacientes. Ela cita uma pesquisa recente da Sociedade Americana de Oncologia Cli?nica que relaciona obesidade com maior mortalidade por ca?ncer de mama.

Ale?m dessa prevenc?ão considerada prima?ria, os me?dicos ressaltam a importa?ncia do rastreamento precoce do ca?ncer, que deve ser feito por meio de mamografias perio?dicas. De acordo com Rafael Kalikis, oncologista do Hospital Albert Einstein, a recomendac?ão da OMS e? que 70% da populac?ão elegi?vel (mulheres na menopausa) realizem esses exames. Caso esse patamar fosse atingido e os tratamentos fossem disponibilizados a tempo, haveria reduc?ão de 15% a 20% na mortalidade.

A adere?ncia a esse tipo de rastreamento pela rede pu?blica no Brasil e? baixa, em torno de 20% a 25% da populac?ão, e isso piorou durante a pandemia de covid-19. Daniela Dornelles Rosa sugere que e? preciso que a rede de sau?de se adapte a? realidade das mulheres que trabalham, a?s vezes em mais de um emprego, e fac?a um ampliac?ão de hora?rios e de dias para a realizac?ão de exames, como nos finais de semana. “E? preferi?vel cuidar da sau?de a cuidar da doenc?a”, afirma.

Embora as principais sociedades de medicina defendam a realizac?ão de exames anuais para mulheres assintoma?ticas a partir dos 40 anos, o Sistema U?nico de Sau?de (SUS) restringe esses exames preventivos para a faixa eta?ria dos 50 aos 69 anos e com periodicidade bianual. Um projeto legislativo, que reconhece o pedido dos me?dicos e reve? essa poli?tica do Ministe?rio da Sau?de, foi aprovado em 2019 pelo Senado e agora esta? em tra?mite nas comisso?es da Ca?mara dos Deputados.

Pandemia reduziu procura por mamografia

Estudos nacionais e internacionais comprovam que a identificac?ão precoce de um ca?ncer de mama possibilita chance de cura de ate? 95%. Por isso, ale?m da prevenc?ão a respeito dos fatores de risco, os me?dicos batem com insiste?ncia na tecla da importa?ncia do rastreamento por meio da realizac?ão de mamografias perio?dicas. Infelizmente, a pandemia de covid-19 reduziu muito a procura pelos exames preventivos, o que pode acarretar aumento de casos.

Estudo realizado pela mastologista Jordana Bessa, da Oncologia D'Or, apontou uma queda de 42% no número de mamografias realizadas pelo SUS em 2020 em relação ao ano anterior, especialmente a partir de abril, quando a maioria dos estados adotou medidas de distanciamento social. Ela também encontrou evide?ncias de que a proporc?ão de caroc?os palpa?veis encontrados nos exames foi significativamente maior no ano passado, o que pode indicar grau mais avanc?ado da doenc?a.

Ainda que os dados da rede particular não sejam consolidados, os efeitos podem ter sido similares na rede conveniada. O Nu?cleo de Mama do Hospital Moinhos de Vento apresentou uma estimativa ainda mais preocupante: queda de 90% na procura por exames de diagno?stico nos primeiros meses da crise sanita?ria e reduc?ão de 35% nos tratamentos iniciais de radioterapia.

Bem informadas te?m maior adesão ao tratamento

Como protagonistas e participantes de deciso?es me?dicas, elas se fortalecem para as batalhas

Se por um lado os diagno?sticos de ca?ncer de mama cresceram no se?culo 21, por outro e? ni?tida a mudanc?a positiva na cena das consultas oncolo?gicas, com a medicina compartilhada e o empoderamento da paciente. Ao se perceber dona de suas escolhas, a mulher tem mais liberdade para desmistificar a doenc?a e, questionar formas de tratamento, e se sente fortalecida para enfrentar os percalc?os que virão, ficando menos susceti?vel a abandonar os cuidados com a sau?de.

A nova relac?ão me?dico-paciente surgiu devido ao avanc?o tecnolo?gico que facilitou o acesso ao conhecimento sobre doenc?as em diversas plataformas digitais. “Muitas pacientes chegam informadas, querendo participar. Não faz sentido uma medicina de cima para baixo, em que o me?dico diz o que fazer, e a paciente obedece”, diz Alessandra Morelle, oncologista e pesquisadora do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS). Para ela, o papel do profissional e? o de um consultor, que vai usar seu conhecimento na discussão de pro?s e contras de medidas a serem adotadas.

Oncologista da Rede D’Or e chefe do grupo de oncologia mama?ria do Instituto do Ca?ncer do Estado de São Paulo (Icesp), Laura Testa concorda que a medicina paternalista e? arcaica e diz que pacientes que se apropriam de sua condic?ão aderem mais aos tratamentos. A?s mais ti?midas, ela sugere tre?s perguntas ba?sicas para se situarem de como esta? sua sau?de. São elas: Que tipo de ca?ncer eu tenho? Qual o esta?gio da minha doenc?a? Qual tratamento eu vou fazer?

Autonomia e engajamento

Cada ca?ncer de mama e? enfrentado de um jeito, podendo requerer pra?ticas como radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia (bloqueio hormonal) e terapia-alvo, ale?m de cirurgia. Um tratamento pode levar de oito meses a um ano – uns mais, outros menos tempo. Nos resultados, sabe-se que pacientes com tumores de ate? 2 cm e axila negativa quando tratadas te?m chance de mortalidade equiparada a? da populac?ão sem ca?ncer, como aponta Ce?sar Cabello, coordenador da a?rea de Mastologia do Centro de Atenc?ão Integral a? Sau?de da Mulher (Caism) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Para o especialista, ate? para determinados casos mais avanc?ados, com tecnologia e novas drogas, tornou-se possi?vel falar em controle. “Ha? mulheres que vivem muitos anos com qualidade, como se tivessem uma doenc?a cro?nica, como diabetes.”

A descoberta de um tumor traz angu?stia e incerteza. A paciente merece ser orientada quanto ao que existe de maior eficácia e menos efeitos colaterais. "Mulheres esclarecidas participam mais do tratamento", diz o mastologista.

Para Jordana Bessa, a lic?ão nessa pandemia e em possi?veis crises futuras e? que o adiamento desse tipo de exame e? muito perigoso. “Temos que nos adaptar, porque as pandemias não te?m previsão de te?rmino. As salas de exame ja? estão liberadas e adaptadas. Não podemos ficar esperando.”

Morelle atenta para a autoestima. “As mamas te?m um simbolismo forte para a mulher. Por mais que os tratamentos sejam menos invasores, ela tem uma perda gigante. Quando a gente consegue colocar essa paciente no centro das deciso?es do tratamento, isso ajuda a aliviar o sofrimento emocional e aumenta o engajamento dela.”

A qualidade de vida tende a ser mais complicada para quem não assume as re?deas. A quimioterapia pode antecipar sintomas de menopausa, e a etapa da hormonioterapia pode acentua?-los. Com essa sobrecarga colateral, 30% das pacientes abandonam a medicac?ão de bloqueio hormonal ou não a tomam com a freque?ncia ideal. “Mas não comunicam nada; isso se descobre em exames sangui?neos”, diz Morelle.

Ja? a protagonista quer ficar boa logo, e procura formas de amenizar sintomas das terapias, seja investindo em atividade fi?sica para não perder mu?sculo, alimentac?ão adequada, psicoterapia, meditac?ão e apoio de organizac?o?es não governamentais (ONGs). O mundo digital tambe?m esta? a favor de sua autonomia. Criado por Alessandra Morelle, o aplicativo Tummi ajuda brasileiras a organizarem sua rotina de cuidados oncolo?gicos e a agirem rapidamente em situac?ão de risco. E ha? plataformas – como o www.coletivopink.com – que trazem conteu?do esclarecedor para dar voz a? paciente.

Empatia deve nortear condutas me?dicas

Ao receber um diagno?stico de ca?ncer, seja qual for, 30% das pessoas entram em choque emocional. A doenc?a e? rotulada como mortal e, nos tumores mama?rios, por mais que as mulheres estejam mais esclarecidas sobre tratamento, chance de cura e de sobrevida, a descoberta de um tumor pode fragilizar bastante. A acolhida no consulto?rio e a conduta empa?tica da equipe multiprofissional farão diferenc?a na jornada dessa paciente.

Laura Testa, do Icesp, afirma que as consultas devem ser transparentes, mas com tato. “Estudos mostram que, ao falar uma palavra que impacta muito, como ca?ncer ou quimioterapia, o pensamento da paciente vai longe, e ela não consegue absorver direito o que esta? sendo falado.” A me?dica sugere que essas indagac?o?es partam da paciente ou sejam deixadas mais para o final do encontro, quando alguns temas ja? foram conversados.

Nas consultas para falar sobre recidiva, a oncologista diz que e? fundamental uma conversa empa?tica porque, na cabec?a da paciente, o que se passa e? a culpa. “Temos de tranquilizar a paciente, explicar que isso aconteceu não pelo que ela fez ou deixou de fazer. Aconteceu porque a doenc?a foi mais esperta do que a gente.”

A me?dica Cristiana Tavares, oncologista da Rede D’Or e professora na Universidade de Pernambuco, aponta uma particularidade a ser considerada frente aos diagno?sticos de tumor mama?rio. “Temos de ser cuidadosos em nossas abordagens, porque no Brasil não se pode adotar a mesma conduta dos consulto?rios americanos, brita?nicos, germa?nicos. A dina?mica tem de ser outra, porque o povo latino e? mais sensi?vel, mais passional”.

Outra orientac?ão que ela segue e transmite aos seus alunos e? enxergar as pacientes como pessoas individualizadas. “Não estamos recebendo um par de mamas! Cada paciente que chega tem sua histo?ria de vida, seus traumas, sua cultura, sua histo?ria conjugal.”

Na abordagem de Cristiana Tavares, ela procura mudar o enfoque da paciente sobre seu diagno?stico. “Eu digo que existem va?rias mortes em vida; e a gente pode morrer e renascer va?rias vezes. Pode ser que essa dor, esse impacto, venha para agente fazer uma avaliação e promover mudanças. A doença vem como uma forma de transformação."

Membership